Direitos humanos: conscientização e interseccionalidade

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: Direitos humanos: conscientização e interseccionalidade

Autora: Liliana Rodrigues

Filiação institucional: Escola de Psicologia da Universidade do Minho

E-mail: lrodrigues@psi.uminho.pt

Palavras-chave: cidadania, conscientização, interseccionalidade

Ao longo dos tempos tem-se assistido a uma crescente discussão e participação na e pela luta contra qualquer tipo de discriminação de forma a criar-se uma sociedade inclusiva, na diversidade. Essa discussão passa pela conscientização [1] das sociedades e pela responsabilidade social que é impressa em cada cidadão e cidadã. Digamos que todos/as nós somos responsáveis por promover uma sociedade não opressora, quer pertençamos a grupos oprimidos ou grupos opressores de determinada categoria social. Essa responsabilidade social passa pelo reconhecimento de que as causas serão sempre nossas, mesmo que elas não nos impliquem directamente. Dito de outro modo, a injustiça social deveria tocar-nos, da mesma forma como sentimos a nossa própria injustiça.

Os movimentos sociais surgiram como uma forma organizada de reivindicar direitos iguais para todos e todas. No entanto, vamo-nos apercebendo que uma grande parte desses movimentos sociais se efectiva combatendo por diferentes causas. Reduzidas são as associações que reivindicam direitos humanos na sua completude. Existem associações que lutam contra diferentes manifestações de discriminação (sexismo, heterossexismo, racismo, ageismo, ableismo, classismo, xenofobia), mas enquanto causas separadas, como se uma determinada pessoa fosse apenas pertencente a uma categoria social e que o peso da discriminação fosse o mesmo, qualquer que fosse essa configuração de pessoa.

A experiência de discriminação de ser mulher, lésbica, preta, idosa, portadora de algum tipo de deficiência, pobre e estrangeira, será efectivamente diferente da de ser mulher, heterossexual, branca, jovem, sem algum tipo de deficiência, rica e nacional.

Desta forma, afigura-se urgente a discussão sobre todas as categorias sociais e o modo como as diferentes intersecções entre elas originam posições e impactos diferentes enquanto experiência de discriminação. É fundamental que haja a conscientização da sociedade, no sentido de conhecer as diferentes realidades que nela coexistem e ser proactivo/a na mudança. Ao mesmo tempo, compreender a interseccionalidade à luz dos direitos humanos permite-nos alcançar, efectivamente, uma sociedade inclusiva na diversidade. Segundo esta perspectiva, só com a conscientização desta interseccionalidade nos será possível, enquanto cidadãos e cidadãs do e no mundo, contribuir para a construção de uma cidadania plena.

É crucial responsabilizarmo-nos pela mudança societal de uma forma implicada, comprometida. Esse compromisso pode efectivar-se no quotidiano de cada um/a, ganhando corpo através do associativismo, do activismo. Esse compromisso pode também efectivar-se pela investigação sobre desigualdades sociais, grupos oprimidos, teorias de opressão, discriminação, direitos humanos…

Mas será que é possível sermos activistas dos direitos humanos, lutarmos contra qualquer tipo de discriminação e ainda sermos investigadores ou investigadoras? Onde começa o activismo e onde acaba? É possível fazer investigação e produção científica vestindo o traje dos direitos humanos? Segundo uma perspectiva crítica e comprometida, essas realidades podem coexistir, essa é a minha perspectiva. O primeiro passo está dado, falta agora assumir os limites e as potencialidades de um activismo e de uma investigação implicada. Temos de ter a noção que em todas as escolhas tomadas há sempre ganhos e perdas, o mesmo se passa quando almejamos lutar contra qualquer tipo de discriminação e tanto ansiamos por conhecimento, por produção científica.

Partilho da perspectiva de mudar o mundo à luz do conhecimento e mudar o conhecimento à luz do mundo! Produzir investigação sobre direitos humanos, sobre grupos oprimidos, sobre “desigualdades” sociais permite-nos alcançar instrumentos para a mudança societal. Paralelamente, estar em contexto, partilhar das experiências do/a outro/a, aceder a elas através do diálogo, ajuda-nos a direccionar e redireccionar a nossa própria investigação. Potencializamos quer o activismo, quer a investigação, reconhecendo que existem limites, que teremos ganhos e perdas e que o conhecimento produzido não se encontra separado do referencial que escolhermos.

É, de alguma forma, assumirmos que não somos ingénuos na investigação que produzimos e que esta é e estará sempre localizada. Sermos activistas de uma causa que estudamos é assumirmos que o nosso conhecimento não é neutro, não é universalizante e é, efectivamente, comprometido! As potencialidades do activismo e da investigação em direitos humanos, nesta perspectiva, é ganhar consciência dos limites, mas de modo algum limitar a nossa acção enquanto defensores e defensoras dos direitos humanos. Tal como se pretende que sejamos implicados na investigação, também se almeja que sejamos comprometidos na e pela sociedade. É, assim, urgente conhecer as realidades e poder actuar sobre elas.

Enquanto cidadãos e cidadãs, é fundamental que sejamos sujeitos e sujeitas implicados/as na mudança do mundo.

Nota

[1] Freire, Paulo (1979), Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire, São Paulo: Cortez & Moraes.

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2 Respostas a Direitos humanos: conscientização e interseccionalidade

  1. Renísia Cristina Garcia diz:

    Pactuo de suas idéias e de suas posturas.

    Para uma sociedade brasileira democrática, de fato, necessita-se de pesquisadores/as comprometidos/as com as mazelas sociais, mas com profundo conhecimento teórico-metodológico que permita que a realidade faça as produções acadêmicas avançarem e não se percam em meras elucubrações sobre o vir a ser, e , no mesmo diapasão, que na prática os cidadãos e cidadãs se percebam parte deste turbulento processo de catarse e avanço.

    Parabéns pelo artigo, breve e objetivo.

    Profa Renísia C. Garcia Filice

  2. Liliana Rodrigues diz:

    Prezada Renísia Garcia Filice,

    Sermos investigadores/as comprometidos/as com as “mazelas sociais” é um grande compromisso. Mas só assim é que a investigação cientifica me faz sentido! Obrigada pela partilha, pelo comentário! Sem dúvida que esta troca nos enriquece profissionalmente, mas fundamentalmente enquanto pessoas.

    Liliana Rodrigues.

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