O “género” na divisão do trabalho doméstico em casais do mesmo sexo

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de vida

Título do artigo: O “género” na divisão do trabalho doméstico em casais do mesmo sexo

Autora: Elisabete Rodrigues

Filiação institucional: investigadora do CIES-IUL, docente na ESTESL

E-mail: elisabete.rodrigues@iscte.pt

Palavras-chave: orientação sexual, género, tarefas domésticas

 

“Sexo”, “género” e “orientação sexual” são, por vezes, usados indiscriminadamente no senso comum. No plano sociológico há muito que se operou a distinção analítica entre estes três conceitos [1] [2].

“Sexo” diz respeito às características de natureza física e biológica que diferenciam homens e mulheres. As mais visíveis referem-se aos órgãos genitais, dimensão dos seios e existência de barba. “Género” distingue os indivíduos ao nível identitário, passando estas expressões por características que ultrapassam as diferenças entre os sexos, tais como personalidade, nível cognitivo, performance sexual, entre outras. As características associadas a cada género são socialmente construídas/determinadas e, por isso, variáveis ao longo do tempo e do espaço (ao contrário dos sexos, estáveis desde que se reconhece a existência histórica do Homem). Também não deixa de ser verdade o facto de, nas sociedades ocidentais, permanecer há muito uma versão dicotomizada desta realidade social (feminino/masculino), construída a partir das diferenças entre os dois sexos. Sítios há, no entanto, em que o género pode assumir três ou mais tipos distintos, como é o caso de algumas regiões da Índia [3]. No ocidente homens e mulheres tendem a acomodar-se aos géneros masculino e feminino respectivamente, sendo estigmatizadas combinações diferentes como o caso dos transexuais ou dos transgénero. Estes últimos distinguem-se por não se enquadrarem neste sistema binário.

“Orientação sexual” caracteriza o tipo de relacionamento sexual/amoroso que os indivíduos mantêm com os outros (ou aspiram/desejam manter). Nas sociedades ocidentais continua a dominar o paradigma da heteronormatividade. Apesar do recente reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal, muito tem que mudar a um nível social mais geral até que as pessoas com esta orientação sexual deixem de ser apontadas como marginais e/ou ser marginalizadas. A começar pelo direito à adopção que ainda não foi reconhecido aos casais do mesmo sexo.

Numa investigação recente sobre a divisão das tarefas domésticas em casais do mesmo sexo [4], puseram-se à prova as teorias que apontavam o “género” como variável explicativa por excelência para a desigual participação de homens e mulheres neste tipo de trabalho não pago. Se nos casais heterossexuais a relação entre ser mulher e despender mais tempo no trabalho doméstico muitas vezes faz sentido, entre casais do mesmo sexo outro tipo de variáveis explicativas tiveram de ser encontradas para as diferenças encontradas. Enumeram-se as que se associam a mais sobrecarga: maior exigência com a limpeza e organização da casa, mais disponibilidade de tempo, gosto pelo desempenho das tarefas e ser proprietário do alojamento. Ao contrário do que é hábito nas investigações sobre trabalho doméstico, neste estudo ouviram-se os dois membros de cada casal (cinco casais de homens e cinco casais de mulheres). Uns tenderam a valorizar o trabalho que o parceiro fazia (mais comum entre os casais de homens), outros a minimizar o contributo do cônjuge (mais comum entre os casais de mulheres). Apesar das diferenças encontradas nos relatos, foi fácil identificar em cada casal qual dos cônjuges mais trabalho doméstico fazia/mais tempo despendia nestas tarefas. Quanto às estratégias adoptadas para a divisão do trabalho, as mais comuns passavam pela complementaridade (mais comum entre as mulheres), seguindo-se a equivalência de papéis (mais comum entre os homens).

Olhando para estes resultados através da variável “género” podem deixar-se duas notas. A primeira diz respeito às representações sociais que estes casais têm acerca dos casais heterossexuais, sobretudo no âmbito da divisão das tarefas domésticas. Outra nota refere-se a dinâmicas na gestão do trabalho doméstico que este indicador torna inteligíveis.

No âmbito da primeira nota, refira-se a tendência encontrada entre estes casais para representarem os casais heterossexuais como mais desiguais ao nível da divisão do trabalho doméstico (10 dos 20 entrevistados). Os entrevistados que consideraram que o desequilíbrio na partilha deste tipo de trabalho é comum em todo o tipo de casais, apresentam, no entanto, justificações diferenciadas: nos casais heterossexuais as desigualdades são explicadas pelas estruturas sociais e nos casais homossexuais por motivos mais subjectivos, como os gostos e aptidões pessoais. Os resultados desta pesquisa não vão ao encontro das representações identificadas, uma vez que os modelos de divisão do trabalho doméstico encontrados nos casais do mesmo sexo são também eles desiguais. Eventualmente menos, é verdade, se bem que a diferença deva ser ponderada pelos elevados níveis de escolaridade da amostra e pela ausência de filhos.

No âmbito da segunda nota, refiram-se duas dinâmicas distintas que se podem justificar pela diferenciada socialização de género de que estes homens e mulheres foram alvos. Os modelos de divisão das tarefas domésticas dos progenitores dos entrevistados eram sobretudo desiguais e penalizadores para as mulheres. Quanto aos filhos, elas, mais do que eles, foram impelidas a tomar para si algumas das responsabilidades domésticas. O resultado não podia ser mais claro: elas delegam menos trabalho a terceiros e estão mais atentas aos desequilíbrios que ocorrem na divisão das tarefas com as suas parceiras; eles delegam mais tarefas e tendem a minimizar as desigualdades vividas nos seus lares no domínio do trabalho não pago. Esta última tendência foi de resto identificada por Kurdek nos casais homossexuais em geral: mais do que os casais heterossexuais, estes tendem a transmitir uma imagem mais favorável da sua relação [5].

 

Notas

[1] Almeida, Miguel Vale de (2000), Senhores de Si: Uma Interpretação Antropológica da Masculinidade, Lisboa, Fim de Século.

[2] Amâncio, Lígia (2003), “O género no discurso das ciências sociais”, Análise Social, vol. XXXVIII, n.º 168, pp. 687-714.

[3] Agrawal, Anuja (1997), Gendered Bodies: The Case of the ‘Third Gender’ in India, Contributions to Indian Sociology, nº 31, pp. 273–97.

[4] Nico, Magda; Rodrigues, Elisabete (2011), “Organização do trabalho doméstico em casais do mesmo sexo”, Sociologia, Problemas e Práticas, nº 65, Janeiro a Abril, pp. 95-118.

[5] Kurdek, Lawrence A. (2001), “Differences between heterosexual-nonparent couples and gay, lesbian, and heterosexual-parent couples”, Journal of Family Issues, 22, pp. 727-754.

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