Processos de reconfiguração de estilos de vida: a classe média em perspetiva

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Processos de reconfiguração de estilos de vida: a classe média em perspetiva

Autora: Rosário Mauritti

Filiação institucional: Instituto Universitário de Lisboa, ISCTE-IUL, CIES-IUL

E-mail: rosario.mauritti@iscte.pt

Palavras-chave: retraimento social e económico; rendimentos.

 

Apresento em primeira mão alguns resultados preliminares do “Inquérito (online) aos rendimentos e consumos das famílias de classe média em Portugal”, promovido pelo CIES-IUL nas semanas de 16 de Outubro a 13 de Novembro de 2012.

Pensar o futuro e encontrar novas perspetivas para a promoção sustentada do bem-estar e qualidade de vida”, foi com este mote que dirigimos um convite «fechado» [1] a, sensivelmente, 2500 portugueses, cujos emails nos foram facultados num processo de passa-palavra entre colegas, amigos e amigos de amigos de diversas regiões do país – na sua maioria, trabalhadores em organismos da administração publica e no sector privado, inseridos em diferentes áreas de atividade económica, especialmente, dirigentes, profissionais intelectuais e científicos e quadros técnicos e superiores -, dos quais perto de 40% acederam em participar.

No inquérito são disponibilizados os seguintes conteúdos:

  1. Caracterização das condições económicas e perfis de rendimentos, incluindo elementos sobre situação de endividamento e comportamentos de poupança;
  2. Redes sociais e recursos privados para fazer face a encargos financeiros não previstos;
  3. Evolução dos consumos nos últimos 12 meses por categorias de produtos e serviços;
  4. Estratégias de adaptação num cenário de incerteza e diminuição da capacidade de consumo, associadas a preferências de marca/serviço e custos;
  5. Perceções sobre bem-estar e qualidade de vida e posicionamentos em relação a ao futuro
  6. Elementos de caracterização sociodemográfica e socioprofissional.

 

Nesta primeira análise dos resultados, vou dar ênfase, sobretudo, a alguns dos traços que marcam o conjunto aqui em referência, em termos dos seus perfis sociodemográficos e socioprofissionais, articulando estes elementos com apreciações que desenvolvem, na referência aos últimos 12 meses, sobre “a evolução de rendimentos (líquidos) disponíveis no agregado para fazer face a despesas pessoais e familiares” e, no caso dos que percecionam a detioração da situação, a análise dos “principais  motivos dessa alteração nos rendimentos disponíveis”.

O nosso universo de referência: 2/3 são mulheres, nas faixas etárias intermédias dos 35 a 54 anos, inseridas em famílias alargadas com três e mais pessoas e com filhos com idades compreendidas entre zero e 16 anos. Os seus perfis qualificacionais são francamente melhorados na comparação com a população portuguesa como um todo (85% têm pelo menos o grau de licenciatura). A larga maioria exerce uma atividade profissional a tempo integral (81%) que se consubstancia de forma muito incidente, tal como a análise dos posicionamentos sociais de classe operacionalizada na referência ao indicador socioprofissional nos permite observar, numa inserção nos segmentos dos profissionais técnicos e de enquadramento (PTE) [2] – aqui internamente diferenciados nos agrupamentos dos “profissionais, intelectuais e científicos” e dos “quadros técnicos e de enquadramento” (respetivamente com representações que envolvem cerca de 38% e 31% do conjunto), e nos posicionamentos de topo na hierarquia social, dos empresários e dirigentes (11%) e dos profissionais liberais (5%).

Figura 1 – Perfis socioeducacionais e socioprofissionais

Nota: n=1001.

Fonte: CIES-IUL (2012), IRC – Inquérito aos Rendimentos e Consumos.

 

Nas respostas à pergunta: “No geral, como avalia a situação presente do seu agregado familiar relativamente aos rendimentos disponíveis para fazer face às despesas e encargos mensais?” Como seria de esperar, destaca-se o peso, muito expressivo, de inquiridos que concretizam condições “razoáveis” (46%) na comparação com os demais portugueses, “vivendo com algum conforto e qualidade de vida, e tendo alguma margem para consumos suplementares”. Mas assumem também expressão muito significativa sectores que manifestam viver “no limite, por vezes com maiores dificuldades no final do mês” (42%), manifestando também algum relevo – especialmente tendo em conta o perfil referido atrás – os agregados familiares que assumem viver hoje em condições de rendimentos insuficientes ou muito insuficientes (6%).

Estas apreciações que denotam o agravamento das condições de vida são ainda reforçadas na avaliação sobre a “evolução de rendimentos (líquidos) disponíveis no agregado para fazer face a despesas pessoais e familiares”, nos últimos 12 meses. No total, sensivelmente 85% percecionam uma pioria moderada (44%) ou muito expressiva (41%) das suas condições de rendimento.

No leque de fatores assinalados na figura 2 como motivos principais da contração dos rendimentos disponíveis emergem categorias que denunciam como causa as políticas de combate ao défice, consubstanciadas no aumento de impostos e contribuições sociais e também no incremento do custo de vida (nomeadamente por via da atualização das taxas de IVA e do consequente aumento generalizado de produtos de alimentação básica e da energia e combustíveis). A estes acumulam-se ainda “a perda de benefícios sociais” e a “diminuição do salário ou rendimentos”, muito transversal no setor privado (por via de redução de benefícios adjacentes à remuneração, como o carro de empresa, o telemóvel ou a internet e os prémios anuais). O “desemprego do próprio ou de um familiar” ou a “quebra de vendas/prestações de serviços” são experiências que adquirem igualmente enorme relevo e acentuam a dimensão mais estrutural das mudanças em curso.

 

Figura 2 – Principais motivos para a alteração nos rendimentos disponíveis

Nota: n=853, correspondente a 85,5% dos que denotam uma pioria das condições de vida; categorias de resposta múltipla).

Fonte: CIES-IUL (2012), IRCIF – Inquérito aos Rendimentos e Consumos dos Indivíduos e Famílias

 

Nas circunstâncias presentes estas famílias posicionadas no topo da “classe média” tendo em conta os seus perfis de qualificação e condições de adaptabilidade melhorados no contexto da sociedade portuguesa atual; embora não configurando ainda, senão num segmento minoritário, características de intensificação extrema de privação material, viram pois os seus quotidianos alterados pela contração económica e pelo ambiente de incerteza social que se instalou. Só para acrescentar mais um indicador: perto de 50% confirma que pelo menos uma vez no último ano (37% em várias ocasiões) teve dificuldades em pagar despesas correntes.

Este é também o segmento que mais beneficiou no período anterior, de grande expansão do crédito aos particulares em Portugal, da melhoria das condições de vida através do acesso facilitado à habitação própria e a determinados bens de consumo, e que, como tal, hoje, está particularmente permeável ao risco de insolvência ou sobre-endividamento.

Os dados recolhidos indicam que pouco mais de 3/4 contraiu pelo menos um empréstimo que está pagar atualmente. E apesar de manifestarem alguma capacidade de poupança (60% recorria a poupanças para fazer frente a uma despesa inesperada de 1500 euros), mais de 1/4 manifesta que presentemente deixou de ter condições ou só faz poupanças raramente (não todos os anos).

Nas suas orientações e preferências de consumo – cuja análise nos demoraremos num próximo artigo – estes indivíduos e famílias assinalam alterações nos comportamentos que parecem denotar uma reconfiguração profunda da própria conceção de bem-estar e qualidade de vida. Em face da contração e instabilidade, vêm-se obrigados a fazer escolhas e sacrifícios no momento de decidir a gestão do dinheiro disponível, perspetivando-se um retraimento transversal e a necessária reconfiguração dos limiares entre «consumos básicos ou essenciais», «consumos alargados» e mesmo os chamados “consumos sustentáveis”, que consubstanciam uma aliança estreita entre boas práticas ambientais e qualidade de vida.

Em que medida é que mesmo este segmento dominantemente de topo da classe média em Portugal está a conseguir desenvolver estratégias de adaptação na gestão de rendimentos disponíveis e das despesas que realiza para assegurar de forma sustentada os seus estilos de vida? Será possível definir padrões de comportamento que configuram oportunidades de melhoria em vetores estruturantes para a manutenção do seu bem-estar e qualidade de vida? Que sociedade se desenha nestas mutações em curso?

Ficam as questões para responder noutra ocasião.

 

Notas:

[1] «Fechado» no sentido em que o acesso e preenchimento online do questionário teve como requisito prévio a receção de um email com convite à participação e senha para login. As respostas uma vez submetidas foram transferidas de forma automática para uma base de dados autónoma, extraída em formato SPSS, garantindo desta forma a anonimização dos dados.

[2] Categoria referente à tipologia de classes sociais, consagrada nomeadamente em Costa (2008 [1999]), Sociedade de Bairro: Dinâmicas Sociais da Identidade Cultural, Oeiras, Celta.

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3 Respostas a Processos de reconfiguração de estilos de vida: a classe média em perspetiva

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  2. Ana Bela Oliveira Lima de Jesus Teodoro diz:

    Pareceu-me que as pessoas que participaram na iniciativa foram na sua quase totalidade com um grau de instrução elevado (comparado com a media nacional) e, digamos, privilegiados pois a diminuição de rendimentos só numa percentagem baixa foi em resultado de perda de emprego o, que não me parece ser representativo na conjuntura atual.

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